O Setembro Amarelo chega ao fim, mas a necessidade de falar sobre saúde mental permanece durante todo o ano. Em Joaçaba, profissionais que atuam diretamente no atendimento de pessoas em sofrimento psíquico chamam atenção não apenas para a importância de reconhecer sinais de que algo não vai bem, mas também para uma barreira que ainda afasta parte da população dos serviços especializados: o preconceito.
A avaliação é da enfermeira e coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Joaçaba, Luísa Cavalcanti. Segundo ela, apesar do avanço das discussões sobre saúde mental e da maior circulação de informações nos últimos anos, ainda existe o estigma de que o CAPS seria um espaço destinado apenas a pessoas consideradas “loucas”.
Na prática, o serviço atende pessoas que enfrentam sofrimento psíquico grave e também transtornos relacionados à dependência química. O trabalho busca oferecer suporte e reabilitação psicossocial para que o paciente consiga retomar atividades, vínculos e diferentes aspectos da vida prejudicados pelo adoecimento. Luísa explica que o CAPS ocupa papel central na atenção à saúde mental e está vinculado à Secretaria Municipal de Saúde. O atendimento é realizado por uma equipe multidisciplinar, que busca observar o paciente de maneira integral, considerando diferentes fatores da vida que podem estar relacionados ao sofrimento apresentado.

Procura pelo CAPS aumentou após a pandemia
A demanda por atendimento cresceu nos últimos anos. De acordo com a coordenadora, após a pandemia houve aumento de 100% no número de pacientes acompanhados pelo CAPS de Joaçaba. Para Luísa, o crescimento também está relacionado à maior atenção dada à saúde mental. Informações divulgadas pela internet e pelas redes sociais contribuíram para que mais pessoas passassem a observar o próprio comportamento, reconhecer situações de sofrimento e procurar atendimento.
Ao mesmo tempo, o caminho até o serviço especializado nem sempre ocorre de forma direta. Segundo a coordenadora, ainda há pessoas que procuram repetidamente serviços de urgência ou chegam a internações psiquiátricas antes mesmo de passar por uma avaliação no CAPS. Por isso, uma das orientações é ampliar o conhecimento da população sobre a função do serviço e sobre as formas de acesso disponíveis no município.
Ansiedade, depressão e dependência química estão entre as demandas
Os casos atendidos são variados. Entre eles estão transtornos de humor e de personalidade, esquizofrenia, depressão, ansiedade e dependência química, principalmente quando o sofrimento começa a provocar prejuízos importantes na vida da pessoa. Esses impactos podem aparecer de diferentes maneiras: dificuldade para trabalhar, afastamento da família e dos amigos, problemas financeiros ou incapacidade de realizar atividades que antes faziam parte da rotina.
O serviço também vem recebendo demandas envolvendo crianças com ansiedade e depressão. Em alguns casos, elas já chegam com diagnósticos estabelecidos e precisam de uma avaliação mais ampla e de acompanhamento multidisciplinar. Outra situação percebida nos últimos anos está relacionada à dependência em jogos. Conforme a coordenação, esse tipo de demanda também passou a aparecer entre as pessoas que procuram atendimento no município.
Quando é hora de procurar ajuda?
Nem sempre quem está enfrentando sofrimento emocional consegue perceber sozinho a intensidade das mudanças que estão acontecendo. O isolamento é um dos sinais que podem chamar atenção. Alterações importantes no sono — dormir pouco ou excessivamente — e na alimentação também devem ser observadas. Ansiedade, irritabilidade, agressividade, comportamento explosivo e uma tristeza persistente são outros exemplos citados pela coordenadora.
Também entram nesse conjunto o abuso de substâncias e comportamentos compulsivos relacionados, por exemplo, à alimentação, sexo ou jogos. A existência isolada de um desses comportamentos não determina, por si só, uma condição específica. O ponto de atenção está principalmente no impacto provocado na vida da pessoa. Por isso, a avaliação de um profissional de saúde é importante para compreender a intensidade dos sintomas e o quanto eles estão interferindo na rotina.

(Foto: Imagem criada por IA para ilustração da notícia/Rádio Líder)
Não é preciso encaminhamento para procurar o CAPS
Uma informação que ainda pode ser desconhecida por parte da população é que o morador não precisa necessariamente ter um encaminhamento para buscar atendimento. Qualquer pessoa residente em Joaçaba pode procurar o CAPS. Para o atendimento, a orientação é apresentar documento com foto e comprovante de residência. A equipe pode realizar o agendamento de uma primeira conversa e acolhimento.
Quando a pessoa já é acompanhada por profissionais de outras áreas, como saúde, assistência social ou educação, essas informações anteriores podem contribuir para a avaliação. Isso também ocorre, por exemplo, em situações envolvendo crianças e adolescentes que já estejam sendo acompanhados no ambiente escolar. Nos momentos de crise, porém, a pessoa pode procurar diretamente o serviço para uma escuta da equipe técnica.
Preconceito ainda é uma barreira
Apesar da ampliação do debate sobre saúde mental, o preconceito permanece presente. Segundo Luísa, ainda existe a associação do CAPS exclusivamente à “loucura”. Esse entendimento pode fazer com que pessoas que precisam de suporte tenham receio de procurar o serviço.
As redes sociais, na avaliação da coordenadora, têm dois efeitos. Por um lado, deram maior visibilidade ao trabalho desenvolvido e ampliaram o acesso às informações sobre saúde mental. Por outro, conteúdos incorretos, piadas e memes relacionados ao CAPS podem reforçar estereótipos e dificultar a procura por ajuda.
Como ajudar alguém que está sofrendo?
O comportamento de familiares e amigos também pode fazer diferença quando alguém demonstra que não está bem. A principal orientação é oferecer acolhimento sem julgamento. A própria pessoa que se dispõe a ajudar, porém, precisa avaliar se está emocionalmente preparada para oferecer esse apoio de maneira adequada.
Entre as frases que devem ser evitadas estão afirmações de que o sofrimento seria “coisa da cabeça”, “falta de fé”, “falta de Deus” ou “frescura”. Comentários que diminuem aquilo que a pessoa está sentindo podem dificultar ainda mais o momento vivido. Luísa ressalta que o sofrimento mental nem sempre pode ser percebido externamente ou demonstrado por meio de um exame, mas isso não significa que deva ser desconsiderado. A orientação é reconhecer aquilo que a pessoa está vivendo e acolher sem julgamentos, considerando que cada indivíduo enfrenta dificuldades e adversidades de maneiras diferentes.
E quando a situação é uma emergência?
Há situações em que o quadro deixa de ser apenas uma necessidade de acompanhamento e passa a exigir atendimento de urgência. Conforme a coordenadora, isso ocorre especialmente quando a pessoa representa risco para si mesma ou para terceiros. Tentativas ou intenção de se machucar, ameaça de ferir outras pessoas, alucinações, surtos e agressividade excessiva estão entre os sinais de alerta.
Também podem existir emergências relacionadas à dependência química, como uso excessivo de substâncias, overdose ou alterações graves de comportamento. Nessas situações, a orientação é procurar os serviços de urgência e emergência do município. Quando a pessoa se recusa a ir ou apresenta comportamento que impeça um deslocamento seguro, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) também pode ser acionado.
Saúde mental vai além de medicamentos e terapia
Ao final do Setembro Amarelo, a mensagem deixada pelo CAPS é também de ampliação da forma como a população compreende a saúde mental. O cuidado não se resume ao uso de medicamentos ou ao acompanhamento psicológico. Alimentação adequada, acesso à moradia, educação, lazer, cultura e condições que permitam qualidade de vida também fazem parte desse conjunto. A orientação é observar a própria rotina, os hábitos e mudanças de comportamento e procurar ajuda quando perceber que algo não está bem.
O CAPS de Joaçaba funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h, sem fechar ao meio-dia. Pessoas que estejam passando por um momento de crise podem procurar o serviço para acolhimento. Nos casos considerados mais leves, também é possível realizar o agendamento de uma avaliação com a equipe técnica. Mais do que concentrar a discussão em um único mês do calendário, o encerramento do Setembro Amarelo reforça uma orientação que permanece válida durante todo o ano: sofrimento emocional precisa ser reconhecido, acolhido e, quando necessário, acompanhado por profissionais.
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