Cobertura vacinal contra a poliomielite está abaixo da meta em Herval d’Oeste e preocupa profissionais de saúde

A poliomielite, também conhecida como paralisia infantil, deixou de circular no Brasil há mais de três décadas. Entretanto, a queda na cobertura vacinal representa um desafio para os profissionais de saúde, que buscam manter a população infantil protegida contra a doença. Em Herval d’Oeste, os índices de vacinação permanecem abaixo da meta de 95% estabelecida pelas autoridades sanitárias.

Em entrevista exclusiva à Rádio Líder FM, a enfermeira Daniela Pasqualli, responsável pela sala de vacinas do município e atuante na área de imunização, apresentou um panorama da vacinação contra a poliomielite, explicou os principais obstáculos enfrentados pelas equipes de saúde e reforçou a importância da participação das famílias.

Segundo a profissional, a cobertura do esquema primário de vacinação em crianças menores de um ano está em 81,26%. Já a cobertura dos reforços, aplicados aos 15 meses e aos quatro anos, chega a 74,18%. Os números representam uma diferença de 13,74 e 20,82 pontos percentuais, respectivamente, em relação à meta de 95%.

Daniela explica que os indicadores são atualizados mensalmente, conforme os registros do DataSUS, e podem sofrer alterações. Ainda assim, os percentuais apresentados demonstram a dificuldade do município em alcançar a cobertura considerada necessária para manter a proteção coletiva.

Cobertura já ultrapassou os 95% no município

A situação atual contrasta com os resultados registrados em anos anteriores. Conforme a enfermeira, entre 2010 e 2016, Herval d’Oeste chegou a alcançar índices de vacinação entre 95% e 98%, período marcado por maior participação da população nas campanhas contra a paralisia infantil. Durante a pandemia de Covid-19, os percentuais sofreram uma redução mais acentuada. Nos anos seguintes, houve uma recuperação gradual, mas ainda insuficiente para atingir novamente a meta.

Entre os principais desafios identificados pelas equipes de saúde estão a circulação de informações falsas sobre vacinas, a falta de conhecimento de parte da população e a dificuldade das famílias em manter o calendário de imunização atualizado.

Outro problema mencionado pela profissional é a mudança de endereço das famílias, que pode comprometer o acompanhamento das doses já administradas e daquelas que ainda precisam ser aplicadas. A enfermeira destaca que a vacinação contra a poliomielite exige continuidade, com doses aplicadas em diferentes etapas da infância. Por isso, receber apenas a primeira dose não significa que a criança tenha concluído o esquema recomendado.

Fim da gotinha exige atenção ao calendário

Uma das principais mudanças recentes na imunização contra a poliomielite foi a substituição da tradicional vacina oral, conhecida como gotinha, pela vacina injetável. A última campanha nacional com a gotinha ocorreu em 2024. Desde então, a vacinação passou a ser realizada exclusivamente com a vacina inativada poliomielite (VIP), administrada por injeção.

O calendário contempla doses aos dois, quatro e seis meses de idade, além de um reforço aos 15 meses. Crianças com esquemas anteriores ou doses atrasadas devem ter a situação avaliada individualmente pelos profissionais de saúde.

Daniela ressalta que, mesmo sem as antigas campanhas da gotinha, a imunização permanece disponível nas unidades de saúde. A profissional orienta que pais e responsáveis procurem os serviços de vacinação com a caderneta da criança, principalmente quando houver dúvidas sobre doses atrasadas.

Vacinação contra sarampo e poliomielite. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por que a poliomielite ainda representa uma ameaça?

O Brasil registrou seu último caso de poliomielite causada pelo vírus selvagem em 1989. Em 1994, o país recebeu, juntamente com os demais países das Américas, a certificação de eliminação da circulação do poliovírus selvagem. A conquista foi resultado de décadas de campanhas de imunização, que reduziram drasticamente a transmissão da doença.

Apesar disso, o poliovírus ainda representa um risco internacional, especialmente em regiões onde a circulação do agente infeccioso não foi completamente interrompida. Segundo Daniela, o deslocamento de pessoas entre diferentes países e a circulação internacional do vírus tornam indispensável a manutenção de índices elevados de vacinação.

A preocupação é que, diante de uma eventual reintrodução do poliovírus, comunidades com baixa cobertura vacinal apresentem maior vulnerabilidade à transmissão. A poliomielite é uma doença infecciosa aguda, transmitida principalmente pela via fecal-oral, por meio do contato com água, alimentos ou objetos contaminados.

Em muitos casos, a infecção pode não apresentar sintomas ou provocar manifestações leves, como febre, dor de cabeça, mal-estar, náuseas e vômitos. Entretanto, em situações mais graves, o vírus pode atingir o sistema nervoso e provocar paralisia muscular, geralmente nos membros inferiores. Também pode comprometer os músculos responsáveis pela respiração e, em determinadas circunstâncias, levar à morte. A doença não possui tratamento capaz de reverter a paralisia provocada pelo vírus. Por isso, a vacinação é considerada a principal medida de prevenção.

Herval d’Oeste conta com sete salas de vacinação

Para ampliar a proteção das crianças, Herval d’Oeste dispõe de sete salas de vacinação, todas com profissionais capacitados para administrar as doses e orientar a população sobre o calendário de imunização. Além do atendimento nas unidades, agentes comunitários de saúde realizam visitas domiciliares, verificam as cadernetas de vacinação e orientam as famílias sobre a necessidade de manter as doses atualizadas.

A enfermeira explica que as campanhas de multivacinação e outras ações promovidas pela Secretaria de Saúde também representam oportunidades para os responsáveis procurarem atendimento e verificarem a situação vacinal dos filhos. Segundo Daniela, o vínculo entre os profissionais e a comunidade é fundamental para combater a desinformação e recuperar os índices de cobertura.

A orientação é que as famílias não aguardem uma campanha específica para atualizar a vacinação. A avaliação da caderneta pode ser solicitada diretamente nas unidades de saúde.

Profissional faz apelo às famílias

Ao comentar os desafios enfrentados pela imunização, Daniela lembrou que as gerações mais jovens não conviveram com os efeitos da poliomielite no Brasil, quando crianças desenvolviam sequelas permanentes e algumas morriam em decorrência da doença. Para a enfermeira, o sucesso das campanhas realizadas no passado não pode ser motivo para reduzir a atenção à vacinação. A profissional reforçou que a vacina é segura, eficaz e disponibilizada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Também orientou os responsáveis a buscar informações diretamente com os profissionais das unidades, evitando conteúdos sem comprovação científica que circulam nas redes sociais.

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