Em Ibiam, no Meio-Oeste catarinense, Simone Parise transformou a vontade de oferecer um doce mais saudável à filha em uma agroindústria familiar. Com o Selo de Inspeção Municipal (SIM) conquistado em maio de 2025 e o consórcio intermunicipal em formação, o doce de leite do Sítio Pereti se prepara para chegar, de forma legal, a toda a região — e a história dela mostra que o caminho é possível para outros produtores.

Tudo começou com uma preocupação de mãe. A filha de Simone da Costa Parise Pereti, a Larissa, sempre foi apaixonada por doce de leite — comia praticamente só ele, passado no pão. Foi ao ler o rótulo do produto de mercado, cheio de ingredientes que nem reconhecia, que Simone teve a ideia.
“A gente vê que o de mercado, se a gente lê os ingredientes, tem bastante mistura que às vezes a gente nem conhece. Não que tudo vá fazer mal, mas algumas coisas não é interessante consumir sempre, em grande quantidade”, conta a produtora, de 40 anos. “E por a gente ter o leite da propriedade, e saber que é um leite de qualidade, eu pensei um dia: por que não tentar fazer?”
A meta era clara: menos açúcar, sem corante, sem conservante, sem glúten, sem nada para engrossar. Só leite in natura — “tirado das vacas, pegado do resfriador, só, e produzido”. Não deu certo de primeira. “Comecei a testar receitas. As primeiras não deram muito certo, não ficou bem do jeito que a gente queria. Até que chegou uma receita que a gente gostou — e a minha filha disse que é o melhor do mundo. Enfim, para a gente é”, lembra, entre risos.
O que era para ser só da família ganhou a vizinhança. A produção começou no fim de 2022; em 2023, amigos e familiares começaram a fazer pedidos. “Foi onde surgiu a oportunidade, aquela vontade de um negócio novo, para também agregar valor ao leite que a gente produz aqui. E foi assim que ele surgiu.” Hoje, já são três anos de doce de leite saindo do tacho.
Uma história de família, escrita na propriedade

A trajetória do Sítio Pereti se confunde com a da própria família. “Fazem 21 anos que a gente é casado, eu e o Rodrigo. A gente veio morar na propriedade dos meus sogros — ele já tinha vaca de leite na época, suínos. A gente trabalhou junto com eles até o tempo que o meu sogro faleceu, e a minha sogra acabou indo para a cidade. A gente acabou assumindo todo o trabalho”, conta Simone. A sogra ainda auxilia quando pode, e a Larissa também já dá uma força.
A rotina é intensa. O sítio produz cerca de 1.500 litros de leite por dia, mantém a suinocultura em integração — com cerca de 1.000 cabeças em terminação — e ainda produz grãos e silagem para alimentar as vacas. No meio dessa engrenagem, o doce de leite é a caçula: “Ainda é pequena, mas a gente acredita que ainda tem bastante campo para ampliar.”
O selo que abre as portas
Em 5 de maio de 2025, o Sítio Pereti conquistou o Selo de Inspeção Municipal. “A conquista do SIM foi de fundamental importância, porque, por ser um produto de origem animal, a gente precisa dessa legalização para poder comercializar livremente. Ela nos permite ter a venda no município”, explica Simone.
E é aí que entra o próximo passo: o consórcio intermunicipal, que está em formação e quando implantado será uma nova oportunidade para os produtores dos municípios que fizerem parte. “Por isso que o consórcio vem agregar muito — além das capacitações, do acompanhamento, das oficinas que eles estão oferecendo, ele vai permitir ampliar a venda a outros municípios de forma legal. Isso acaba trazendo mais retorno. E é muito bom, porque a gente agrega valor ao leite produzido aqui na propriedade, com uma produção familiar, caseira.”
A comercialização hoje se concentra em Ibiam, mas o doce já rompeu fronteiras por conta própria: clientes de fora compram e levam para outros municípios, e a marca já é conhecida na região. “É muito bom saber que o pessoal está gostando, que compartilha uns feedbacks bem positivos. Isso dá ânimo e incentivo para a gente continuar a ampliar.”

“Enquanto a gente não está assessorado, tudo parece muito distante”
Simone participa do Programa de Fortalecimento dos Pequenos Produtores e Agroindústrias (PROFAR), desenvolvido pelo do Sebrae/SC e voltado à agroindustrialização regional — e faz questão de explicar por que ele importa, na visão de quem vive a realidade do campo.
“No meu ver, é muito importante, porque ele incentiva produtores que já têm produtos bons, que fazem no informal, a buscar a legalização — e a ter mais produtos no mercado com uma qualidade muito superior”, avalia. “Enquanto a gente não está assessorado, tudo parece muito distante, muito difícil. E quando a gente tem um acompanhamento de profissionais que entendem, que explicam, a gente vê que não é bicho de sete cabeças. Ajuda muito.”
Ela não romantiza: “Tudo o que você vai fazer na vida envolve um certo empenho, você tem que ter uma disciplina. Mas se a pessoa tem vontade, é possível.”
E deixa um recado direto a quem produz na informalidade e ainda hesita: “O que eu posso dizer para outros produtores é que é possível. A pessoa tem que amar o que faz, tem que gostar do que faz, principalmente. E procurar as informações, os recursos necessários. O que não pode é desistir da primeira dificuldade que aparecer — porque dificuldades sempre vão aparecer, em qualquer atividade. Se você sabe que o teu produto é bom, vale a pena não ficar na ilegalidade, e as outras pessoas conhecerem o teu produto.”
O caminho para quem quer começar
Quem acompanha de perto essa transformação em Ibiam é o médico-veterinário Célio Lucas Ramos, concursado há mais de 20 anos no município e responsável pelo Serviço de Inspeção Municipal local. Ele lembra que a lei de inspeção existe em Ibiam desde os anos 2000 — mas, na versão antiga, o produtor só podia vender dentro do próprio município. “Com a atualização das leis, estamos regulamentando junto ao Ministério da Agricultura para que os produtos com inspeção municipal possam circular livremente nos municípios do consórcio — e, em alguns casos, até em nível nacional”, explica.
A mudança, segundo ele, corrige uma barreira histórica que travava o pequeno produtor: “Se ele fosse buscar uma inspeção estadual ou federal, teria que criar uma infraestrutura muito grande, muito cara, que inviabilizaria a comercialização. A gente chegou numa fase muito boa.”
E há um próximo passo no horizonte do Sítio Pereti: o Selo Arte. “O doce de leite está pleiteando o artesanal. É um produto de mão de obra familiar, com receita artesanal, matéria-prima — o leite — produzida na própria propriedade. Com o Selo Arte, ele pode ser comercializado no Brasil inteiro”, detalha o veterinário.
Aos produtores interessados, o caminho é simples: “As informações, a documentação e os regulamentos estão todos disponíveis no site do município, ou podem procurar diretamente o médico-veterinário. A gente passa todas as orientações necessárias. E está aí o Sebrae, que está ajudando muito nessa parte, para as pessoas aprenderem boas práticas de fabricação, industrialização e comércio.”
Sebrae/SC é parceiro para abir novas portas
Para Lizandra Regina Medeiros, gestora regional do Sebrae Meio-Oeste, o próximo passo, que será a criação dos consórcios intermunicipais, é uma noav porta que se abre aos produtores.
“Histórias como a do Sítio Pereti mostram que, com orientação e planejamento, é possível transformar um produto artesanal em um negócio formalizado e com potencial de crescimento. O Sebrae/SC atua justamente para apoiar os produtores nesse processo, oferecendo capacitações e acompanhamento técnico. Com a formação do consórcio intermunicipal, novas oportunidades de comercialização serão abertas, fortalecendo as agroindústrias familiares e impulsionando o desenvolvimento da nossa região.”
Feito com amor
O rótulo do doce do Sítio Pereti carrega a assinatura “feito com amor” — e Simone garante que não é marketing. “É realmente o que ele foi: produzido pensando na nossa família. Acho que tudo que a gente faz para a família, a gente envolve muito amor. E é isso que eu quero transmitir para as pessoas: que é um produto de qualidade, caseiro, exclusivo. Ele nem sempre vai ser cem por cento igual aos produzidos em grande escala — mas ele segue um padrão de qualidade.”
Para saber mais
Esta reportagem integra uma série especial sobre os produtores do Meio-Oeste catarinense que estão conquistando o Serviço de Inspeção Municipal (SIM), com o apoio do Sebrae/SC. Os interessados em saber como o programa funciona ou como fazer parte dele, podem buscar informações nas prefeituras dos municípios que fazem parte do PROFAR.
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